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Há muito que eu não me emociono com uma canção, filme ou literatura, e isso também vale inclusive para pregação religiosa - faz tempo que não ouço nada de extraordinário ou que vá além da lengalenga neo-pentecostal ou da pretensa profundidade de exegetas de igrejas históricas - perdoem-me se cheguei a ferir o sentimento religioso de alguém, mas a verdade é esta, posso contar com os dedos da mão esquerda do Lula se nos últimos tempos algo que eu ouvi me arrebatou os sentidos.
Quando foi a última vez que realmente me impressionei com alguma das artes?: sei lá, há mais de um ano, com o filme "Mais Estranho Que a Ficção", ou com alguma frase do Metheny, ah sim, não posso me esquecer do CD e show Ultimate Adventure do Corea, um livro do Garcia Marquez, enfim é muito pouca coisa.
Mas, dentro do último CD do Herbie Hancock, lançado no final do ano passado em que este pianista virtuoso resolveu fazer tributo a uma cantora/compositora ainda viva, Joni Mitchell, há uma música fora-de-série, comovente, perfeita.
Bem, antes de comentá-la, acho que cabem aqui algumas anotações sobre o próprio CD e o que envolve esses poucos mais de 6 minutos da música 2.
Joni Mitchell, pra quem não sabe é estrela do folk-pop-rock americano da déc. de 70, é poetisa e letrista das próprias canções - dois dos discos da artista estão na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stones, além de colecionar alguns grammies na currículo. A mulher, a bem da verdade, já fazia com muita decência e com 30 anos de antecedência o que a Norah Jones pensou ter inovado em 2002. Pensando bem, olhando algumas fotos da artista, ela se parece muito com minha mãe, a Dona Bel.
No CD de homenagem do Hancock à Mitchell há algumas jóias dignas de admiração. E até é natural que isso aconteça, a matéria prima (composições) é boa, as intérpretes são fabulosas, têm-se desde a própria Mitchell até a sensação inglesa do momento, Corinne Bailey Rae (a mocinha do clipe da bicicletinha), tendo como música-abertura a já citada Norah Jones e até a participação da brasileira Luciana Souza.
Bem, o empreendedor-chefe da obra intitulada "River: the joni letters" é o, na minha opinião, maior pianista vivo de jazz. Não tem para ninguém. Está certo que na capa, ele, vestindo aquele cachecol roxo, parece ser de uma espécie de afro-bicha-velha ou talvez seja para encarnar o “Kingpin” da segunda canção do CD. Mas ele pode! Pode sair até de Carmem Miranda que ele é o cara. E com esse projeto se recupera do anterior e descartável Possibilities, em que o músico chamou as celebridades da música pop para gravarem algo pretensamente vanguardista, mas que no fim é mais pop até do que a música que elas já fazem. Ficou insosso, sem brilho, sem empolgar.
Pareceu que queria imprimir um efeito semelhante de quando a gente vai falar de evangélicos famosos ou influentes ("sabe o Kaká, o melhor do mundo?, é cristão", "sabe o Patitucci e o Laboriel, os melhores do mundo?, são cristãos!", "sabe o Chuck Norris, o homem que contou até o infinito duas vezes?, é cristão!", "sabe o Bush?... ah, bem..., deixa pra lá! Vamos falar de música”).
Acho que Hancock quis fazer o mesmo, ao aparecer ao lado das popstars, só para jazzófilo, querendo converter os outros, gabar-se "está vendo o pianista desse musical com Cristina Aguilera, Santana, Joss Stone e outros, é desse que eu falo a você já faz mais de 20 anos". Mas, não me convenceu. É, talvez seja glamuroso para um pop dizer que está fazendo jazz. Até a insuportável da Sandy canta jazz!
Bem, continuando, no sax tenor temos um Wayne Shorter aveludado, contido, de ótimo gosto com notas e frases precisas, nada em excesso, nada de Weather Report. No ponto. Nesse ponto ele me lembrou muito Joe Henderson, sobretudo pelas frases, timbre e pontualidade. Fiquei um bom tempo procurando o nome do Joe nos créditos do CD. Me esqueci que o homem já se foi há seis anos. Cabeça a minha!
Acompanha ainda, Vinnie Colaiuta que é, sem dúvida, o baterista mais completo e mais virtuoso - ele consegue passear no pop, no rock, hard rock, no jazz, com autonomia, estilo, frases nervosas e segurança ímpares. Ele é o sujeito que consegue tocar a música Against the Clock (Contra o Relógio) do Holdsworth, a música ritmicamente mais insana em 4/4 que eu conheço, mas que também compõe a seção rítmica do Megadeth, Laura Pausini, Michael Buble, Bocelli, Ramazzotti, Pussycat Dolls, Paul Anta, digo, Ancas, digo, Anka e da própria Joni Mitchell, enfim, não há com quem o Colaiuta não tenha tocado. Só ainda não tocou comigo porque nossos horários não bateram, estou devendo essa para ele!
No baixo acústico está nada menos que o inglês Dave Holland, o sucessor do lendário Mingus, está no mesmo altíssimo nível com sua criatividade e grooves poderosos. Ele é o baixista inglês mais novaiorquino que já ouvi.
Há ainda um guitarra revelação nigeriano que nunca tinha ouvido falar, Lionel Loueke. Não faz nada de mais, mas é o detalhe que dá balanço, deixa agradável, aperfeiçoa e dá liberdade para as frases do pianista.
Já devidamente apresentados os músicos, falo agora da canção que dá o título dessa resenha, "Edith and the Kingpin". É, longe, a melhor faixa do CD.
Hancock ressuscita a vovó Tina Turner, dos confins do Mad Max, - quase no mesmo momento em que morre seu ex, Ike -, para uma interpretação formidável, emotiva, cheia de alma (soul) e de veneno com frases e timbre bluesy, numa canção com uma melodia envolvente, para não dizer espantosa, adornada com as frases cromáticas e modais do Shorter. Aliás, preste atenção no último riff de sax que entra no fadeout: é algo do além. Sensacional!
A letra é fantástica, bem elaborada, inteligente, contrariando a fraqueza habitual das letras americanas usuais, o que mostra o talento de Mitchell na poesia. Ali, a poeta descreve o relacionamento da mocinha Edith com um criminoso, um cafetão, um mafioso. O tema se assemelha à letra Bang Bang de Nancy Sinatra (Meu amor atirou em mim...), só que com uma atmosfera mais noir, mais nebulosa, com descrições mais líricas e sofisticadas.
Enfim, se há algo emocionante para se ouvir, eu sugeriria a canção de mesmo nome do presente texto, "ouse um olhar, mesmo que distante" nesse belíssimo tema.
Thiago Faria - 31/01/2008
Quando foi a última vez que realmente me impressionei com alguma das artes?: sei lá, há mais de um ano, com o filme "Mais Estranho Que a Ficção", ou com alguma frase do Metheny, ah sim, não posso me esquecer do CD e show Ultimate Adventure do Corea, um livro do Garcia Marquez, enfim é muito pouca coisa.
Mas, dentro do último CD do Herbie Hancock, lançado no final do ano passado em que este pianista virtuoso resolveu fazer tributo a uma cantora/compositora ainda viva, Joni Mitchell, há uma música fora-de-série, comovente, perfeita.
Bem, antes de comentá-la, acho que cabem aqui algumas anotações sobre o próprio CD e o que envolve esses poucos mais de 6 minutos da música 2.
Joni Mitchell, pra quem não sabe é estrela do folk-pop-rock americano da déc. de 70, é poetisa e letrista das próprias canções - dois dos discos da artista estão na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stones, além de colecionar alguns grammies na currículo. A mulher, a bem da verdade, já fazia com muita decência e com 30 anos de antecedência o que a Norah Jones pensou ter inovado em 2002. Pensando bem, olhando algumas fotos da artista, ela se parece muito com minha mãe, a Dona Bel.
No CD de homenagem do Hancock à Mitchell há algumas jóias dignas de admiração. E até é natural que isso aconteça, a matéria prima (composições) é boa, as intérpretes são fabulosas, têm-se desde a própria Mitchell até a sensação inglesa do momento, Corinne Bailey Rae (a mocinha do clipe da bicicletinha), tendo como música-abertura a já citada Norah Jones e até a participação da brasileira Luciana Souza.
Bem, o empreendedor-chefe da obra intitulada "River: the joni letters" é o, na minha opinião, maior pianista vivo de jazz. Não tem para ninguém. Está certo que na capa, ele, vestindo aquele cachecol roxo, parece ser de uma espécie de afro-bicha-velha ou talvez seja para encarnar o “Kingpin” da segunda canção do CD. Mas ele pode! Pode sair até de Carmem Miranda que ele é o cara. E com esse projeto se recupera do anterior e descartável Possibilities, em que o músico chamou as celebridades da música pop para gravarem algo pretensamente vanguardista, mas que no fim é mais pop até do que a música que elas já fazem. Ficou insosso, sem brilho, sem empolgar.
Pareceu que queria imprimir um efeito semelhante de quando a gente vai falar de evangélicos famosos ou influentes ("sabe o Kaká, o melhor do mundo?, é cristão", "sabe o Patitucci e o Laboriel, os melhores do mundo?, são cristãos!", "sabe o Chuck Norris, o homem que contou até o infinito duas vezes?, é cristão!", "sabe o Bush?... ah, bem..., deixa pra lá! Vamos falar de música”).
Acho que Hancock quis fazer o mesmo, ao aparecer ao lado das popstars, só para jazzófilo, querendo converter os outros, gabar-se "está vendo o pianista desse musical com Cristina Aguilera, Santana, Joss Stone e outros, é desse que eu falo a você já faz mais de 20 anos". Mas, não me convenceu. É, talvez seja glamuroso para um pop dizer que está fazendo jazz. Até a insuportável da Sandy canta jazz!
Bem, continuando, no sax tenor temos um Wayne Shorter aveludado, contido, de ótimo gosto com notas e frases precisas, nada em excesso, nada de Weather Report. No ponto. Nesse ponto ele me lembrou muito Joe Henderson, sobretudo pelas frases, timbre e pontualidade. Fiquei um bom tempo procurando o nome do Joe nos créditos do CD. Me esqueci que o homem já se foi há seis anos. Cabeça a minha!
Acompanha ainda, Vinnie Colaiuta que é, sem dúvida, o baterista mais completo e mais virtuoso - ele consegue passear no pop, no rock, hard rock, no jazz, com autonomia, estilo, frases nervosas e segurança ímpares. Ele é o sujeito que consegue tocar a música Against the Clock (Contra o Relógio) do Holdsworth, a música ritmicamente mais insana em 4/4 que eu conheço, mas que também compõe a seção rítmica do Megadeth, Laura Pausini, Michael Buble, Bocelli, Ramazzotti, Pussycat Dolls, Paul Anta, digo, Ancas, digo, Anka e da própria Joni Mitchell, enfim, não há com quem o Colaiuta não tenha tocado. Só ainda não tocou comigo porque nossos horários não bateram, estou devendo essa para ele!
No baixo acústico está nada menos que o inglês Dave Holland, o sucessor do lendário Mingus, está no mesmo altíssimo nível com sua criatividade e grooves poderosos. Ele é o baixista inglês mais novaiorquino que já ouvi.
Há ainda um guitarra revelação nigeriano que nunca tinha ouvido falar, Lionel Loueke. Não faz nada de mais, mas é o detalhe que dá balanço, deixa agradável, aperfeiçoa e dá liberdade para as frases do pianista.
Já devidamente apresentados os músicos, falo agora da canção que dá o título dessa resenha, "Edith and the Kingpin". É, longe, a melhor faixa do CD.
Hancock ressuscita a vovó Tina Turner, dos confins do Mad Max, - quase no mesmo momento em que morre seu ex, Ike -, para uma interpretação formidável, emotiva, cheia de alma (soul) e de veneno com frases e timbre bluesy, numa canção com uma melodia envolvente, para não dizer espantosa, adornada com as frases cromáticas e modais do Shorter. Aliás, preste atenção no último riff de sax que entra no fadeout: é algo do além. Sensacional!
A letra é fantástica, bem elaborada, inteligente, contrariando a fraqueza habitual das letras americanas usuais, o que mostra o talento de Mitchell na poesia. Ali, a poeta descreve o relacionamento da mocinha Edith com um criminoso, um cafetão, um mafioso. O tema se assemelha à letra Bang Bang de Nancy Sinatra (Meu amor atirou em mim...), só que com uma atmosfera mais noir, mais nebulosa, com descrições mais líricas e sofisticadas.
Enfim, se há algo emocionante para se ouvir, eu sugeriria a canção de mesmo nome do presente texto, "ouse um olhar, mesmo que distante" nesse belíssimo tema.
Thiago Faria - 31/01/2008
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